Ouvir, ler e dar a ler.
4.25.2007
Novembro em Abril
O 25 de Abril comemora-se hoje como o evento histórico do derrube de um regime fascista velho e isolado. É uma data histórica apenas, como o 5 de Outubro, a Restauração, a conquista de Lisboa aos mouros. Sim, porque o 25 de Abril durou um escasso ano e meio, o tempo de derrubar o regime velho e de lutar pela implantação de um novo. Depois sobreveio o 25 de Novembro que, vitorioso, manteve o 25 de Abril como símbolo abstracto mas que, na realidade, nada tem a ver com ele, apenas se aproveitou dele. É por isso que em 2007, como desde há trinta e um anos a esta parte, se comemora simbolicamente um 25 de Abril com as suas flores militares e populares e os seus fogos de artifício, mas se comemora realmente o 25 de Novembro. Daí o consenso cada vez maior, e a camaradagem à mesa das comemorações de vencedores e derrotados do 25 de Novembro. Só acho chato que ainda se use como peça do símbolo uma canção de José Afonso, ele que abominava o 25 de Novembro. O 25 de Abril aconteceu na minha juventude, por isso o recordo com força e saudade. Aliás, é a única coisa que recordo (que quero recordar) da minha juventude. Cheguei a beber um copo casual com José Afonso que me mandou cortar o cabelo – eu tinha um dos cabelos mais longos e formosos do 25 de Abril – e depois se recusou a cantar no Técnico porque viu alguns Porsches revolucionários no parque de estacionamento à entrada. Conheci tenentes e capitães de Abril, e revolucionários sem fim, conheci Vítor Alves, o da barbicha, que me salvou do serviço militar (a burocracia militar e a outra não desapareceram no 25 de Abril). Assisti, mesmo antes do 25 de Novembro, às espreitadelas esconsas dos abutres e dos oportunistas. Formou-se administrativamente, nestes meses, uma multidão de doutores em Letras, Direito, Ciências Sociais, Economia, Geografia – eu trocava uma licenciatura dessas por um diploma verdadeiro da quarta classe – e ainda falam do Sócrates… Noite e dia, era a festa efémera da revolução, e os grupos de jovens – muitas raparigas julgavam ter conquistado milagrosamente a liberdade –, bêbados de sono, espantavam-se como ainda era possível haver quem quisesse ir dormir. Viva o 25 de Abril, mas para que precisa a nostalgia de fanfarras?
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