10.09.2010

AS DUAS GOTAS DE MEL, ou A VERDADE É A MORTE, ou O ESPELHINHO DA ARTE

Se pensam que comprei a revista Ler, 5 euros – uma viagem de ida e volta Fogueteiro-Lisboa na Fertagus, uns ténis no chinês, duas garrafas de bom vinho alentejano, 6 ou 7 imperiais, um bom livro em estrangeiro – por causa da cinéfila foto recorrente de José luís Peixoto ou do recorrente morfema Agualusa, estão muito enganados. Comprei-a por causa do artigo de Rogério Casanova esmiuçando a “empatia” da arte de Tolstói após leitura do I (de quatro) volume de Guerra e Paz. A introdução, Casanova, é que foge ao rigor do resto: a literatura russa do século XIX não é de outro mundo, de outro planeta. É do nosso planeta, esse mesmo, só que com mais samovares, mujiques, sinceridade ingénua e ausência do medo de errar por parte dos escritores. Também quero ajudar admitindo que Lev Nikoláevitch, quando escreveu Guerra e Paz, talvez já andasse nesta, que o fez roçar o suicídio:

Extraído de Confissão, uma obra, ou sermão, do período tardio do autor:

As duas gotas de mel que, mais tempo do que as outras, me distraíam a atenção da cruel verdade — o amor pela família e pelo trabalho de escrita a que eu chamava arte — já não me parecem doces.
«A família — dizia a mim próprio —, sim, mas a família é a mulher e os filhos; são também pessoas. Estão nas mesmas condições que eu próprio: ou devem viver em mentira, ou então ver a verdade terrível. Para que precisam de viver? Para que preciso eu de os amar, proteger, educar e cuidar deles? Para o mesmo desespero que trago em mim, ou então para a imbecilidade! Como gosto deles, não posso ocultar-lhes a verdade, qualquer passo no caminho da aprendizagem leva-os até esta verdade. Mas a verdade é a morte.»
«A arte, a poesia?.. Durante muito tempo, sob a influência do êxito e do elogio humano, convenci-me de que eram uma obra possível apesar da morte iminente que ia exterminar tudo — a mim, à minha obra e à memória dela; mas não tardei a ver que também isso era um engano. Era claro para mim que a arte era um adorno da vida, um engodo da vida. Mas se a vida perdeu para mim o seu encanto enganador, será lícito enganar os outros? Enquanto não vivi a minha própria vida, enquanto a vida alheia me levava nas suas ondas, enquanto acreditava que a vida tinha sentido, embora eu não fosse capaz de o exprimir, todo o género de reflexões da vida na poesia e nas artes me dava alegria; eu tinha prazer em mirar a vida no espelhinho da arte; porém, quando comecei a procurar o sentido da vida, quando senti a necessidade de ter a minha própria vida, esse espelho tornou-se inútil para mim, ou então ridículo, ou então torturante. Já não podia consolar-me com o facto de estar a ver no espelho que a minha situação era estúpida e desesperada. Era fácil alegrar-me com isso enquanto acreditava, do fundo da alma, que a minha vida tinha sentido. Então esse jogo de luzes e sombras, do cómico, trágico, comovedor, belo e terrível da vida divertia-me. Mas quando soube que a vida era absurda e terrível, a brincadeira com o espelhinho deixou de me divertir. Nenhuma doçura do mel podia parecer-me doce quando via o dragão e os ratos a roerem o meu suporte.»

2 comentários:

Fluzão Eterno disse...

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Sun Iou Miou disse...

Não se faz isto, voltar de fininho. Ou faz-se, ainda bem. :)

Li este ano Guerra e Paz e a seguir Anna Karénina (metralhada inconscientemente pelo aniversário, nem dei por isso) e senti uma pequenez da boa, pela cabeça tantas telas em movimento.

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