Ejaculação prematura. Às vezes, com a proximidade da morte – e a morte está sempre próxima em qualquer idade, desde que pensemos nela -, a agitação mental é tanta, é tal a cavalgada de sentimentos e pensamentos que nos apetece meter tudo numa crónica. Mas metemos sempre apenas um pouco, a ponta túrgida e já túrbida, e o resto murcha após a inevitável ejaculação precoce. Todo o orgasmo é precipitado e extemporâneo, é uma defesa para outros rebentamentos mais graves, é um suspiro e um ópio. É este o peso da vida e da morte sobre a «criatura oprimida».
Suspiro e ópio. O que Marx realmente escreveu em 1844 foi: «A religião é o suspiro da criatura oprimida. Ela é o ópio do povo.» A justaposição destas duas frases, a existencial e a política, coloca a religião no mesmo plano das forças e das fraquezas da carne. É esta a arma dos ateus. Um ateu não é um incrédulo. Se nega Deus é porque o declara morto, e se o declara morto é porque pressupõe a existência finada Dele ou Disso, desse irreal presente. Chamo à crónica Saramago, um ateu, só para exemplificar. Os meus ateus preferidos são Stendhal, Sade, Baudelaire, Tchékhov, Schopenhauer, Nietzche, Freud. Não Voltaire nem Saramago. Saramago, como é natural, foi atacado por religiosos. Os religiosos não existiriam sem ateus, nem os ateus sem religiosos, porque não há ateus sem Deus. As coisas estão neste pé há muitos séculos, e é por isso que os argumentos de ambos nesta polémica parecem superficiais e banais. Mas não, de tão profundos e antigos banalizaram-se, simplesmente. De um lado estão Moisés, Jesus e Maomé, do outro o exército daqueles para quem Moisés, Jesus e Maomé não dizem nada, apenas Deus ausente diz tudo. O ateísmo é uma guerra, a religião é uma guerra. Entre eles não pode haver tolerância. Quase não valia a pena o jornal Público chamar um escritor estrangeiro de renome, Richard Zimmler, para dizer tantas banalidades e superficialidades para reiterar que tudo nesta polémica tinha sido banal e superficial. Está tudo na ordem das coisas, e a única frase válida de Zimmler é aquela em que, do campo dos religiosos, defende tréguas: «Os religiosos portugueses não deveriam responder a Saramago.»
Gott ist tot. De pegada em pegada, lá vamos chegando. Chegando onde? A Deus. À sua morte anunciada por Nietzche e não só. Sem esta morte arduamente conquistada pelos ateus ao longo dos séculos, Deus teria ganhado o jogo por falta de comparência do adversário mas extinguir-se-ia de verdade por falta pura e simples de campeonato.
Crash de 1929. Passou há poucos dias uma efeméride a que pouca gente se referiu. «Nada actual», devem ter pensado os pensadores, mas é-o muito, é mais do que nossa mãe ainda viva: o crash de 1929, que provocou mais suicídios do que a queda do Muro e a angústia da longa noite islandesa juntos. Podemos entrar numa Grande Depressão por causa disso? Não parece, alguma coisa se aprendeu com 1929. Naquele tempo «corriam rumores de que nos hotéis do centro perguntavam aos hóspedes se queriam quarto para dormir ou para se atirarem pela janela» (John Kenneth Galbraith). Tal como agora, o rebentamento da bolha (a tal crise fodida que teria por consequência uma guerra mundial e que só essa guerra haveria de resolver) foi antecedido por uma década de expansão contínua (o taylorismo e o fordismo), de alegria jazzística, de criminalidade honrada, de baixíssimas taxas de desemprego, de frigoríficos e carros para todos, casas, vivendas e lofts, de crédito fácil e de compras de acções a prazo ao alcance de todos mediante uma pequena fiança, da ascensão dos trusts a píncaros nunca vistos. E a bolsa sempre a subir, os lucros sempre garantidos. Não sou economista para explicar o mecanismo financeiro desta artificiosa comédia de enriquecimento e do seu desenlace trágico, só sei, e toda a gente sabe, que as acções deixaram de corresponder aos lucros operativos das empresas, que os especuladores financeiros tinham agarrado na coisa e dado asas à sua fantasia diabólica e criminosa, desgraçando muita gente e o país. Isso não lhes faz lembrar nada, leitores? O mecanismo foi o mesmo que subjaz actualmente às hipotecas subprime, à especulação com as empresas da net, aos bónus escandalosos, aos silêncios (antes do estouro) governamentais e administrativos. Aprendeu-se alguma coisa com o crash de 1929, sabendo que ele é mais do que nosso pai ainda bem conservado? Acho que sim: nos EUA, centro de tudo, diz-se que a economia está a recuperar, mas está-lo-á realmente ou, pelo contrário, fantasiosamente, com piruetas e aventuras financeiras? Não se esqueçam que as subprime já entram novamente e com bastante força na dança feérica do grande baile financeiro. Não esqueçamos que, nos EUA de 1929 , «o crash não se limitou a esse dia [30 de Outubro]. A bolsa entrou em queda, a intervalos, desde essa semana até ao dia 8 de Julho de 1932, quando atingiu o seu nível mínimo, o mesmo nível que tinha no ano de 1800. Até 1954, a bolsa não recuperou os níveis de 1929.» (Fernando Trías de Bes). Vamos esperar o fim da aventura e, optimistas, não recear pela recaída do cancro. Conclusão: o rebentamento das bolhas especulativas é o culminar de um orgasmo a que se segue sempre uma murchidão. Esperemos pela erecção seguinte, se entretanto não advier a doença, a impotência, a morte e o cadáver.
O Benfica, Uma Aventura, Correio da Manhã. Uma crónica de domingo não o seria se não incluísse o futebol e as curiosidades. Benfica: Se não nos tivessem anulado aquele golo limpo que daria o empate, outra águia cantaria. Uma Aventura, a Bíblia dos chavalos crédulos: Maria Isabel Alçada é uma mulher simpática e rica (do meu ponto de vista), pobretana do ponto de vista de um banqueiro de topo, remediada do ponto de vista de vossas excelências meus leitores. Não sei se ela já estava no Plano Nacional de Leitura ou em qualquer gabinete do ME quando 4-quatro-4 «umas aventuras» passaram a ser leitura obrigatória para os putos das escolas (aumento de vendas espectacular, penso eu). Partindo do facto que as «umas aventuras» são uma merda, do ponto de vista pedagógico, literário, psicológico, histórico e até geográfico, pobres na escrita e no enredo, sem imaginação, sem piada (li muitas por obrigação de pai), estupradoras muitas vezes dos delicados cérebros infantis (em literatura não há nada inócuo), e nada que se compare com os belos livros infanto-juvenis da escritora Alice Vieira, por exemplo, como é que vai ser agora? Os livros da sra. Ministra continuarão a ser obrigatórios ou recomendados, mesmo que não tenha sido a sra. Ministra a promovê-los como leitura escolar quando ainda não era ministra? E, já agora, o outro frasco literário para meter a resistência ao fascismo, Felizmente há Luar, também vai continuar? Não haverá outros frascos mais credíveis? Então e eu? Eu também quero ser leitura obrigatória, até porque já tenho saído no Correio da Manhã pela mão talvez amiga de Francisco José Viegas. Bem, ele amputa-me lá as frases, pontapeia-mas do contexto, mas eu não me importo, dou tudo por 89 caracteres+espaços no Correio da Manhã, curvo-me como um salgueiro-chorão.