2.11.2012

A semana política (não dispensa a leitura de 5 dias)


Afinal não houve acordo, mas pacto (na nova e na velha ortografia). Mas se começam a espalhar por aí que o pacto é de esquerda e a luta é de direita (com Vasco Graça Moura à frente), também posso dizer que o Benfica é de esquerda, o Porto de direita, o Sporting de extrema-direita e que o Belenenses é gay. De qualquer modo, não fales à toa, para para (nova ortografia) pensar.

Quanto à poesia (outro tema candente do dia, até em Bruxelas, porque a poesia acha que pode fechar-se em copas enquanto os outros espumam de revolta) e a despropósito, ele há tanta poesia nos entrefolhos da edição que tens de pensar em meter alguma na máquina de triturar papel. Começa por Pablo Neruda e Ary dos Santos, que aliás não são poetas mas simples comunistas, que se estivesse aqui o Pedro Mexia não me deixava mentir.

Outra candência que grassa, até em Bruxelas, é o desemprego, el paro, le chômage e, nas línguas anglo-saxónicas não me lembra assim de repente. Desemprego, 1. É um problema, mas foi pior na Revolução industrial e no crash de 1929; 2. Só não é problema se estiveres bem empregado ou, alternativamente, gozares de um excelente desporto nacional. (O caso de Espanha, atacada pelo franceses no que a Espanha tem de mais excelente, o desporto, e que leva los tios espanhóis a esquecer tudo até os 25% de desemprego, por causa de el Contador, o dopado ciclista que apanhou dois anos e cujo crime foi abusivamente alargado a todo o excelente desporto nacional espanhol, pelos franceses, mais uma prova de xenofobia e inveja. E quem são os franceses? Não são Sarkozy nem De Gaulle, nem Joana d’Arc nem os Luíses, nem os cozinheiros famosos nem os mineteiros, nem as modistas nem Zidane, nem os beurs nem os juifs, nem os padeiros nem ninguém, nem le peuple, enfin – são os guignols que gozaram com Nadal, Contador e Casillas. Não nego a importância do desporto, veja-se Búsquets, o discreto centro-campista criativo melhor talvez do mundo e cujo levou Alguém a sarapitolar um abstract de tese de doutoramento em centro-campismo pela pena de um grande especialista, mas concedam umas notinhas de roda-pé ao desemprego. O parêntese já vai longo, fecha.)



Sobre o barulho da escrita, considerado fundamental para a sobrevivência também em Bruxelas, deixo-vos dois indevíduos num restaurante da mítica Persburgo, no início do século passado, mas podia ser hoje porque os homens passam e as línguas ficam. É do livro Petersburgo de Andrei Béli, Relógio d’Água, vão lá comprar que isto é marketing:

— «O barulho devia soar como “i”, mas o que se ouve é “ã”…

Lippântchenko, sonolento, mergulhou num pensamento qualquer.

— «No som “ã” há qualquer coisa de rançoso, de viscoso… Ou estarei enganado?...»

— «Não, não: de maneira nenhuma» — murmurou Lippântchenko sem o ouvir e, por um instante, distraiu-se dos seus pensamentos.

— «Todas as palavras com “ã” são monstruosamente corriqueiras; outra coisa é o som “i”; “i-i-i”— límpido firmamento, ideia nítida, cristal; o som “i-i-i” lembra-me bico aquilino curvilíneo; ora as palavras com “ã” são tão rasteiras; olhe por exemplo: o “achigã”: a-che-gã-ã-ã, qualquer coisa de sangue frio… E também “maaanso”: então não é uma coisa repugnante? “peanha” — uma coisa amorfa; “ranço”, “carranha”.

O meu desconhecido interrompeu o discurso: Lippântchenko estava diante de si como uma pedra de peanha amorfa; o fumo do seu cigarro rançava a atmosfera: e Lippântchenko estava dentro da nuvem; o meu desconhecido olhou para ele e pensou: «Que nojo — que coisinha asiática»… Estava sentado à sua frente um autêntico «ã»…

…………………….

Na mesinha contígua alguém exclamava por entre soluços:
«— Uma nhanha é que tu és, nhanha!...»

1.29.2012

O menino Messi

"No me gusta hablar de los árbitros pero a veces son soberbios y te amenazan con tarjetas".

1.19.2012

1972-2012: nada mais triste

Rui Costa espantou-me pela originalidade despretensiosa da sua escrita. Conheço-o sobretudo pelos seus textos na antiga Insónia, hoje Antologia do Esquecimento.

1.16.2012

Messi, Lobo Antunes, pastel de nata, vento gélido, noite escura, margem sul, prisões cheias...


Os temas abundam e a vida é tão curta.
Do Messi não gosto, quero lá saber que seja o melhor do mundo na arte do pontapé na bola. É um produto popular estragado pelo dinheiro fácil. Marca um golo e olha de revés para os adversários e para as câmaras, e mesmo para os colegas, com aquele sorrisinho mimado e superior, com aquele olhar de gozo tão feio, tão infantil e já sem a inocência infantil. Acho que lhe falta aquele bocadinho de inteligência e sensibilidade que tinham os grandes: Maradona, Zidane, Figo... Sinal de velhice caquética, nabokoviana, de checheísmo: que o melhor escritor português, Lobo Antunes, que tinha a obrigação de conhecer a natureza humana melhor do que o treinador culé ou o xenófobo Cruuiyff, arvore o Messi, que claramente não pensa, em baluarte do seu pensamento e da sua arte.
Do pastel de nata não gosto, é enjoativo, embora admita que poderia salvar a economia nacional. A culpa de não, aceito, é dos empresários lusos pouco empreendedores que não têm cultura américo-canadiana e que, por motivo de não ficarem tão obesos e adiposos como o Estado, não o comem às toneladas.
Do vento gélido e da noite escura quem gosta a não ser algum poeta?
Da margem sul não gosto, vote em quem votar. A margem sul é aldeã sem aldeia, é citadina sem cidade.  Acham os margino-sulistas que as ruas das suas localidades são só deles, que os cães deles podem cagar nos passeios e os dos forasteiros não, que os forasteiros são para abater. Só passas a vizinho deles quando te tornares tão mesquinho como eles. Uma imensa atitude pidesca reina nas mentes destes herdeiros dos homens e mulheres que enfrentaram a Pide. Ou então não, são como todos nós, pensam que, nesta degradação geral, assim é que se faz pela vida.
Chama-me doutor e rebola-te na lama. Quando se disser Pich. Adalberto Soares (picheleiro), Tan. Franklin Costa (tanoeiro), Mer. Francisco Pancinhas (merceeiro), etc., aceito que chamem a qualquer licenciado Dr. Coiso ou Eng. Coisinhas.
Do resto só tenho dúvidas, a única certeza é a de que o maior ladrão é o Estado e dele não estão as prisões cheias.

1.02.2012

Praticamente à letra

Parece-me às vezes que os soldados
que não voltaram dos campos sangrentos
não se deitaram na terra nossa
mas em grous brancos se tornaram.

Até hoje desde tempos remotos
eles voam e mandam-nos suas vozes.
Será por isso que tristes nos calamos
olhando os céus?

Voam e voam as aves em cunha cansada,
no nevoeiro do fim da tarde voam,
e nesta formação sobra um espaço,
talvez o meu para mim guardado?

Chegado o dia, com o bando de grous
vou navegar na mesma bruma cinzenta,
chamando dos céus, à maneira das aves,
a todos vós que deixei na terra.

(É a letra da canção de Mark Bernès, "Juravli", que vai abaixo):



Ainda 2012, ano do fim do mundo

Sei que ainda é cedo, mas já pensaste onde vais passar o fim do mundo?

12.31.2011

Melhorano

Na região duriense, como os anos costumam ser maus, nunca se deseja "bom ano", mas "melhor ano", um melhor que pode ir do sofrível ao péssimo. A gente pessimista acaba por ter razão, uma vez que, um ano mais velhos não pode ser bom, nem para uma criança. Desta vez, mais uma noite escura e o ano que vai entrar igual e indiferente, por mais que lhe deitem foguetes.

12.06.2011

A alma russa


A alma, como toda a gente sabe, não se vê nem se apalpa, assim temos de procurar a alma russa na literatura clássica russa ou, melhor ainda, na análise a essa literatura feita pelos peritos ocidentais em alma russa. A alma russa, só para dar um exemplo comezinho, é como --- em maior --- a saudade tipicamente portuguesa  que também não se vê nem se apalpa, a não ser no fado, agora património. Mas o fado, dadas as suas origens, é canalha, e a alma russa, asfixiada mas nunca esganada até ao fim pelos bolcheviques, é mais do que boa pessoa, é sublime. A alma russa, mesmo coberta de farrapos, é rica (não tanto como Pútin e os magnatas oligarcas, mas esses, ao que consta, não têm alma), é diversa, é morta (Gógol), luminosa e obscura, é infinitamente nobre e infinitamente mesquinha, «uma alma gorda e gulosa, descarada e divertida, ávida e sem cerimónias, brincalhona quando é lucrativo e soturna quando não o é» (Petruchévskaia), assassina, cruel, exploradora, mas também bondosa, tchekhoviana, generosa. É puta, é santa. O fado, mesmo património, não lhe chega aos calcanhares, a alma russa ouve um fado e ri-se, cospe-lhe na cara. É arrogante como o seu querido filho pródigo Volódia Nabokov. Ou humilha-se como o último dos eremitas do Baikal. Há almas russas que ainda trazem o diabo bexigoso e bigodudo no corpo. É uma alma de primeira e bem merece estar lá, a letras de ouro, na literatura deles e na nossa. Que não desanime porém a alma lusa (saludos CR7 y Mou), que não se desalme. Alma, todos temos uma, até os fantoches merkelianos, tenhamos fé.

12.04.2011

Para os detractores da poesia e dos respectivos poetas

Extraire le nectar de notre animalité à travers de jolis mots, n’est-ce pas cela la poésie?

(Tirado de um comentário do blogue La République des Livres)

11.21.2011

O dia de ontem

O que se passa em Espanha? Nada de novo, continua a afundar-se, e continuaria se ganhassem os socialistas. Foi eleitoralmente simples: O PP e o PSOE têm o mesmo programa, de maneiras que nem foi necessário haver debate sobre programas na campanha. E a esquerda, a que tem outro programa e tentou debater? Ficou-se pelos 4 milhões de votos, contra 18 milhões do não-programa da direita (1 milhão e 700 mil da coligação comunista, que subiu de 2 para 11 deputados, e o resto das esquerdas independentistas catalãs e bascas e outras). Se esta esquerda não cair na ficção ou não vier a padecer da patologia stalinista de se sentir subconscientemente culpada da débâcle, é mesmo assim uma grande força.
Entretanto, em Espanha, tudo na mesma no pior dos mundos: Messi e Ronaldo continuam a marcar golos, para inveja do mundo, e as salas de apostas e de jogos continuam cheias. Em espanhol futebolês, e não só, ilusión é sinónimo de fé e esperança.
*
No Câmara Clara da 2, debateu-se brilhante e apaixonadamente o que há de essencialmente ocidental e mitológico na literatura russa, com Francisco Vale, editor, António Pescada, tradutor e Paula Moura Pinheiro, a apresentadora e guardadora de mitos, que estava bem preparada. O que não evitou que repetisse várias vezes que a língua em que escreviam os escritores russos era o cirílico. António Pescada, tímido e nervoso, teve a elegância de não lhe explicar (e aos telespectadores) que cirílico é apenas uma convenção gráfica utilizada também no búlgaro, no bielorrusso, no ucraniano, no sérvio, no grego, etc. PMP não se coibiu também de levantar a alta questão superior-ocidental: por que razão no século XIX, um país tão atrasado, produziu uma literatura tão boa? E alvitrou: questão de aculturação? Influência da cultura europeia na aristocracia culta russa (sobretudo francesa)? Direi apenas que no século XIX, e mesmo antes e mesmo depois, a Rússia era bastante europeia e tanto se aculturou como aculturou os outros, e era até bastante ocidental: se procurarmos bem no mapa-múndi, ainda há muito sítio oriental para lá dela. Quanto ao atraso, estava na vanguarda também no teatro, no cinema (desenvolveram a técnica cinematográfica ainda antes dos irmãos Lumière), na medicina, na ciência e na tecnologia (limito-me a citar Lomonossov e Mandeleev, o das tabelas periódicas), etc., e, vá lá, aconselho a Wikipédia. Mas no geral, um programa positivo e animado, e ficamos muito contentes por não se falar muito no «general inverno» que derrotou Napoleão e os nazis, na «alma russa», nas «imensas vastidões geladas», na balalaika e no «voa, voa, minha troika voa»... e na suposição de que o génio de Dostoievski e de Tolstói (e não Tólstoi) lhes adveio de serem gays.
*
E por cá, igualmente tudo bem, os leões provaram ontem que estão capazes de disputar honrosamente o domínio da selva, o Porto domesticou-se e nós todos estamos a transformar-nos em bonecos, como na Espanha, na Rússia e até no mundo, dependentes do preço das pilhas.

11.19.2011

Avec le temps




Avec le temps

Avec le temps...

Avec le temps, va, tout s'en va

On oublie le visage et l'on oublie la voix

Le coeur quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller

Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien

Avec le temps...

Avec le temps, va, tout s'en va

L'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie

L'autre qu'on devinait au détour d'un regard

Entre les mots, entre les lignes et sous le fard

D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit

Avec le temps tout s'évanouit

Avec le temps...

Avec le temps, va, tout s'en va

Mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'a un' de ces gueules

A la Gal'rie j'Farfouille dans les rayons d'la mort

Le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule

Avec le temps...

Avec le temps, va, tout s'en va

L'autre à qui l'on croyait, pour un rhume, pour un rien

L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux

Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous

Devant quoi l'on s'trainait comme trainent les chiens

Avec le temps, va, tout va bien

Avec le temps...

Avec le temps, va, tout s'en va

On oublie les passions et l'on oublie les voix

Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens

Ne rentre pas trop tard, surtout ne prend pas froid

Avec le temps...

Avec le temps, va, tout s'en va

Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu

Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard

Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard

Et l'on se sent floué par les années perdues

Alors vraiment

Avec le temps on n'aime plus.

11.07.2011

Revista SALAZAR


Toda a revista, ainda mais cultural, tem de de ter evidentemente o seu nomezinho. Mas SA†AZAR… Ah, mas são meninos, tudo lhes serve para brincarem à cultura e à provocação bem-pensante, os rapazelhos diabretes, afinal não fazem mal a ninguém, tu é que estás velho e já não tens pedalada. Pois eu, que conheci Salazar e gramei com ele na escola e tive de lhe fazer a saudação fascista em riste e de comer do rancho da mocidade portuguesa e da legião portuguesa porque era e sou pobre, acho que os meninos já têm idade para largar essas fraldas ideológicas tão velhas e malcheirosas. Que tal revista TROIKA?
Ainda por cima têm a mania que são bons e que o mundo gira à volta das suas brincadeiras liceais.

10.28.2011

A ver se alguém tem paciência para ler isto

Livro: Vida e Destino
Autor: Vassili Grossman
Editora: D. Quixote
Nº de páginas: 855


Este livro, que passou pelas vicissitudes tipicamente soviéticas na sua aprovação, tentativa de edição e proibição, teve um destino que foi ainda mais longe. Entregue ao editor (a revista Znamia) em 1961, passou de imediato para as mãos do KGB e teve o privilégio não só de ser proibido como o de desaparecer da face da Terra durante vinte anos. Conhece-se outro caso semelhante, o de Arquipélago Gulag, de Soljenítsin. O manuscrito de Vida e Destino só apareceu na Suíça no ano 80, graças a ilustres dissidentes soviéticos, entre os quais o físico Andrei Sákharov, tendo sido então publicado a partir das duas versões (ambas incompletas) do manuscrito. Na Rússia foi preciso esperar pela glasnost para a publicação do romance em 1988. A nada disto assistiu já Vassíli Grossman, uma vez que faleceu de cancro de rim três anos depois de ter entregue o seu manuscrito e de o ver apreendido pelas autoridades.
           Vida e Destino é uma obra magistral, um imenso fresco à semelhança de Guerra e Paz de Tolstói. Percorre a sociedade soviética sob a mão de ferro de Stálin, assim como a sua evolução a partir da Revolução de 1917 na Rússia. Enquadra-se sobretudo, temporalmente, nos meses de combates defensivos em Stalingrado e depois na contra-ofensiva vitoriosa soviética após o cerco e a tomada da cidade.
O desencantamento, a reviravolta na percepção das coisas levou à evolução política e espiritual de Vassíli Grossman de escritor soviético bem integrado para um dos mais lúcidos desmascaradores do sistema totalitário compressor e hipócrita instalado no país, e deve-se sem dúvida à experiência que viveu, como correspondente de guerra, no segundo conflito mundial. Todo o livro aponta para isso. Profundo conhecedor de ambos os lados do conflito, começou a notar a coincidência da visão do mundo entre nazis e stalinistas. No livro, é particularmente significativo o diálogo (quase monólogo) centrado no oficial SS da Gestapo, Liss e Mostovskói, velho comunista prisioneiro dos alemães. Extractos :
Os dias passavam, mas Mostovskói nunca mais era chamado para o interrogatório. [Até que apareceu Liss]:
 — Quando nos olhamos na cara, um ao outro, olhamos não só para uma cara odiosa, mas também para o espelho. Nisto consiste a tragédia da época. Será que não estais a reconher-vos em nós, a vós próprios, à vossa vontade? Será que para vós o mundo não é a vossa vontade, será que é possível fazer-vos hesitar ou parar? […]Assestamos golpes ao vosso exército, mas é a nós que os nossos golpes atingem. Os nossos tanques romperam não só a vossa fronteira, mas também a nossa, as lagartas dos nossos tanques atropelam o nacional-socialismo. É terrível, é como um suicídio em sonho. Pode acabar tragicamente para nós. Está a entender? Se vencermos! Nós, vencedores, ficaremos sem vós, sozinhos contra o mundo alheio que nos odeia.
[…]
— Dois pólos! Está certo, não há dúvida! Se não fosse uma verdade absoluta, hoje não haveria esta terrível guerra. Somos os vossos inimigos mortais, sim, sim. Mas a nossa vitória é a vossa vitória. Está a entender? Mas se vocês saírem vencedores, nós perecemos, mas ao mesmo tempo vamos viver na vossa vitória. É um paradoxo: ao perdermos a guerra, ganharemos a guerra, vamos desenvolver-nos noutra forma, mas na mesma essência.
[…]
— Pense! Quem está nos nossos campos quando não há guerra, quando não há prisioneiros de guerra? Nos nossos campos de detenção, nos tempos de paz, estão os inimigos do partido, os inimigos do povo. Nos vossos campos estão também pessoas suas conhecidas. E se, no tempo de acalmia, de paz, a nossa Direcção de Segurança Imperial incluir no sistema germânico os vossos presos, não os deixaremos sair em liberdade, o vosso contingente é o nosso contingente.
[…]
— Os comunistas alemães que metemos no campo de concentração também foram encarcerados por vós no ano trinta e sete. Ejov encarcerou-os, e o Reichsführer Himmler também…
[…]
— […]O abismo não existe! Foi inventado. Somos uma forma da mesma essência: o Estado partidário. […] Não vejo causa nenhuma para a nossa hostilidade!
[…]
— Oh, não é idiota, tanto o senhor como eu temos de compreender: não é nos campos de batalha que o futuro será decidido. Conheceu Lénin pessoalmente. Ele criou o partido de novo tipo. Foi o primeiro a compreender que apenas o partido e o seu líder exprimem o impulso da nação, e pôs fim à Assembleia Constituinte. Porém, como o físico Maxwell que, destruindo a mecânica de Newton, pensava que estava a consolidá-la, Lénin, criando o grande nacionalismo do século vinte, também se considerava o criador da Internacional. Depois, Stálin ensinou-nos muita coisa. Para o socialismo num único país é preciso liquidar a liberdade camponesa de semear e vender, e Stálin não hesitou: exterminou milhões de camponeses. O nosso Hitler viu que há um grande obstáculo para o movimento alemão nacional e socialista: o judaísmo. E resolveu exterminar milhões de judeus.
Vassíli Grossman não podia também deixar de notar, durante a guerra e na sequência dela, o abandono, por parte dos ideólogos e da nomenklatura comunistas, do internacionalismo e da amizade entre os povos (mera figura de retórica) e a instalação do culto de um nacionalismo exacerbado logicamente ligado ao anti-semitismo (veja-se a personagem Strum, o cientista judeu, e as suas discussões filosóficas com os amigos). Este facto levanta também em Vassíli Grossman outras questões. Será ele, nomeadamente, um dos primeiros jornalistas a entrar no campo de Treblinka. E saberá da morte na Ucrânia de sua mãe, vítima da repressão nazi contra os judeus, apenas aquando do regresso à pátria das tropas soviéticas, depois da derrota dos nazis e da descoberta do «genocídio à bala» perpetrado pelos nazis em 1941 e 1942.
Vida e Destino não só denuncia a violência nazi mas detecta também, e denuncia, a institucionalização progressiva do nacionalismo, chauvinismo e anti-semitismo pelo regime soviético stalinista: «Decidia-se o destino dos prisioneiros de guerra alemães que iam para a Sibéria. Decidia-se o destino dos prisioneiros de guerra soviéticos nos campos nazis, para quem a vontade de Stálin destacara, para depois da libertação, um lugar ao lado dos prisioneiros alemães na Sibéria. Decidia-se o destino dos calmuques e dos tártaros da Crimeia, dos balcares e dos tchetchenos, levados, por vontade de Stálin, para a Sibéria e para o Cazaquestão, perdendo o direito à memória da sua história, a dar ensino aos filhos na língua materna. […] Decidia-se o destino dos judeus resgatados pelo Exército Soviético, para que, no décimo aniversário da vitória do povo em Stalinegrado, Stálin levantasse por cima das suas cabeças a espada do extermínio arrancada das mãos de Hitler.»
Este livro apresenta-se, assim, como um testamento intelectual e literário, um testemunho muito sincero, em forma de ficção, sobre a União Soviética e uma visão terrivelmente lúcida do percurso histórico a partir da revolução de 1917.
Vida e Destino é a segunda parte de uma epopeia iniciada com Por Uma Justa Causa (onde a reviravolta completa da percepção de Vassíli Grossman ainda não tinha acontecido) mas pode ler-se isoladamente sem quaisquer problemas. A sua acção inicia-se em Outubro de 1942 e estender-se-á por vários meses, seguindo a contra-ofensiva soviética iniciada em Stalinegrado até à chegada do Exército Vermelho à Ucrânia, nos princípios de 1943.
         Se o centro do romance é a batalha de Stalinegrado, porque é ela que dita a «marcha dos acontecimentos», o seu tempo e memória são muito mais vastos e os seus personagens espalham-se por toda a Rússia, têm actividades e visões da vida muito diferentes. Esta composição caleidoscópica, à maneira de Tolstói, aliás várias vezes citado pela boca da personagem Strum, principalmente, confere ao livro um carácter global e exaustivo, quer em termos históricos, quer em termos psicológicos, a todos os níveis de leitura.
O olhar do autor sobre as personagens é profundamente humanista e variado, e nunca sectário. Aqui, os homens são partículas no seio dos sistemas sociais de massas, e mostra-se a tendência dos indivíduos em aceitarem o sistema no caso de ocuparem nele o seu lugar. Mas também a importância de as pessoas terem capacidade de resistir, de manter a sua dignidade humana, a sua liberdade interior. O físico Strum cai em desgraça perante os chefes administrativos, os burocratas da nomenklatura e do partido e os próprios colegas do instituto tolhidos pelo medo ambiente e institucional, e resiste, pronto a perder tudo --- trabalho, vida confortável, liberdade. Um telefonema pessoal de Stálin levanta-o da lama até às alturas de uma pessoa privilegiada, de intocável a brâmane --- e o recente lutador torna-se submisso. A arma do poder totalitário não é apenas a violência que leva ao extermínio físico de seres humanos, mas antes de mais os métodos de transformar pessoas em «parafusos» da máquina estatal, conformistas e participantes obedientes do regime.
A forma literária de Vassíli Grossman é muito forte, o realismo do seu estilo não está contaminado pela propaganda nem pela visão optimista oficial da nova vida, é antes um realismo clássico, onde é imitada a estrutura global de Tolstói em Guerra e Paz, onde abundam os debates filosóficos como em Demónios ou Irmãos Karamázov de Dostoiévski. É interessante a análise de Tzevetan Todorov à obra de Grossman e particularmente a Vida e Destino: o autor de quem Grossman se sentiria mais próximo, «pela sua própria confissão, é Tchékhov, porque é ele que traz à literatura russa o novo humanismo centrado nas ideias de liberdade e de bondade». Uma coisa é certa, o realismo de Vassíli Grossman é um realismo implacável. Os «novos tempos», tal como esfolaram a revolução para lhe aproveitarem a pele, são esfolados e escalpelizados pela pena corajosa e lúcida do autor. A União Soviética é vista pelas personagens como um verdadeiro monstro burocrático com regras tão arbitrárias e flutuantes que, de um momento para o outro, podem recompensar ou castigar o cidadão, com o único objectivo, ao que parece, de criar na população em geral um sentimento difuso de medo e angústia. A este sentimento aliam-se, indissociavelmente, as instituições de segurança e repressão, os campos correccionais, os processos pré-formatados (praticamente sem direito à defesa por parte do acusado), a denúncia institucionalizada que daí advém. Até em plena guerra, onde todos estavam do mesmo lado, até em plena batalha de Stalinegrado, o medo de falar e agir e a denúncia e a purga permanentes são moeda corrente a que ninguém escapa, nem os próprios denunciantes. Este medo culmina na pessoa de Stálin, «escravo do tempo e das circunstâncias, resignado e obediente servo do dia de hoje». No romance de Vassíli Grossman é também muito bem contado o fenómeno psicológico da assunção da culpa por quem não é claramente culpado de nada. Krímov, personagem chave de Vida e Destino, um homem férreo e sem dúvidas, foi parar, como tantos militantes destacados do partido, às masmorras da Lubianka. Sabe-se inocente mas, na evolução dos interrogatórios, começa a questionar a sua «inocência». E nem o amor o salva da culpa mística com que o partido impregna toda a gente. «Depois dos interrogatórios, Krímov ficava deitado no catre, gemia, pensava, conversava com Katzenelbogen. Agora já não pareciam inverosímeis a Krímov as loucas confissões de Bukhárin e de Ríkov, de Kámenev e de Zinóviev, o processo dos trotskistas, dos centros direitistas e esquerdistas […]»
         Nem só da II Guerra Mundial trata o livro. Através da formidável galeria de personagens de Vida e Destino, Vassíli Grossman leva-nos a descobrir os julgamentos dos soviéticos da sua época sobre a história do país após o advento dos bolcheviques, numa visão de conjunto multifacetada e bem informada: Vassíli Grossman questiona  a utilização violenta e maciça por parte dos sovietes, em 1917, da sua vitória na revolução para assumirem um poder absoluto sobre as instituições russas, em detrimento da formação de uma Assembleia Constituinte para a Rússia; com as evocações frequentes sobre o esbulho e a eliminação dos kulaks nos anos vinte questiona a política agrária; com as purgas maciças de finais dos anos trinta condena abertamente o sistema securitário. A vitória absoluta e total do regime surge em Vida e Destino como a vitória do absurdo e do arbitrário sobre o humanismo do ideal comunista. Como já se viu, as críticas formuladas através do livro ao sistema social assim criado e desenvolvido incidem muito sobre a viragem do regime soviético do internacionalismo para o nacionalismo, que terá consequências muito concretas: o ostracismo institucionalizado de certos sectores da sociedade passará ao longo dos anos a um racismo institucionalizado incidindo sobre etnias e religiões consideradas nocivas. E é este factor que, aos olhos de Grossman, marcará a proximidade dos regimes hitleriano e stalinista, em tudo o que eles têm de implacável nas suas pretensões ao bem absoluto para os seus abstractos homens «eleitos»: alemães puros de um lado, operários puros do outro. Mais uma vez, é a personagem mais pessoal do seu romance, Strum, quem debate estes pontos de vista.
Para terminar, apontemos a visão filosófica expressa no livro e personificada nas ideias humanistas e aparentemente ingénuas de um tal Ikônnikov, eremita místico depois executado pelos alemães e um dos prisioneiros russos juntamente com o bolchevique Mostovskói.  Em certo sentido, esta visão do mundo corresponde a um ponto de contacto entre as filosofias ocidental e oriental; rejeita violentamente a possibilidade de um grande bem social universal assim como as pretensões dos sistemas sociais de massas, valorizando a dualidade da condição humana, que vê sistematicamente surgir o bem do mal e o mal do bem.
No fundo, porém, só a leitura integral deste livro nos mostrará o escritor e o homem, Vassíli Grossman, capaz de pôr em questão a totalidade do seu sistema de pensamento assim como as doxas do seu tempo, tornando-se assim um dos testemunhos mais lúcidos e corajosos da história profunda (aquela que não nos pode ser transmitida pelos livros de história) do século XX.

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