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O VERMELHO E O NEGRO

Ouvir, ler e dar a ler.

11.11.2009

Suicídio


Há também este livro. A Assírio & Alvim informa que faz uma venda jeitosa no Chiado, deste e de outros:
A partir das 19h00 de hoje, e até ao dia 31 de Dezembro de 2009, livros, livros e mais livros no Chiado. Livros mais baratos, livros esgotados, livros impossíveis de encontrar, livros de artista, livros de tiragem limitada, e ainda, postais, cartazes e outras surpresas. Um novo projecto temporário da Assírio & Alvim no Chiado, desta vez na Rua do Carmo, 35, loja 12 (antiga Bolsera). De segunda a sexta-feira das 12h00 às 19h00, e ao sábado das 10h00 às 19h00. Visite-nos.

Amanhã não falte: voltaremos com mais textos de Pascal Quignard, por mim traduzidos.

Robert Enke - a morte impetuosa

Este blog, segundo os especialistas em sitemeter, praticamente não existe. Por isso tanto me faz. O vídeo de Pascal Quignard que coloquei abaixo não foi visto nem achado por ninguém. Quando muito, segundo o «by referrals» do sitemeter, alguma gente o abriu por uns segundos, deve ter ficado um pouco à espera que Pascal Quignard cantasse, e foi tudo. Eu quis apenas introduzir Pascal Quignard e o seu último livro, La Barque silencieuse. Para Quignard (embora eu tenha um cabelo grisalho magnífico, não me importava de ser careca como ele se fosse ele), se tivésseis ouvido o vídeo, o suicídio é assim como uma coisa nobre. Não somos reféns da vida, diz ele, temos sempre à mão o acto que é o supra-sumo da liberdade: a nossa morte, e até isso a religião nos quer tirar. O livro trata de outras coisas, não só de suicídio, do ateísmo e das suas relações amigáveis com o suicídio, por exemplo, e se tivésseis ouvido o vídeo, seus impetuosos, teríeis até ouvido que «Clinton, e infelizmente Barack Obamá», pregam a tolerância religiosa, mas tão-só entre religiões, não alargam a sua generosa tolerância aos ateístas que também são gente. Neutros é que não podemos ser, não é? Ora eu vou colocar aqui todos os dias alguns textos do novo livro de PQ sobre o suicídio, onde ele prova que, provavelmente, Robert Enke não cometeu pecado ao suicidar-se. Este é o primeiro, e o título é este mesmo: A morte impetuosa.

A palavra magnífica e líquida de suicídio faz a sua aparição no coração do mundo barroco. Até então os juristas franceses, assim como os padres no seu latim, usavam perífrases. Falava-se de morte «voluntária» ou de morte «impetuosa». A religião e a superstição decerto não desejavam que este acto definitivo se tornasse um nome comum. Ao recusarem-lhe um lugar no léxico, esperavam talvez repelir o pecado para fora do real. Mas que outra coisa faz Lancelot, julgando que Guenièvre está morta, ao prender uma corda ao arção da sua sela? Que fazia Rolando em Roncevaux, no cantinho do seu rochedo, ao renunciar à fuga e ao recusar a rendição? Para designar «o homicídio daquele que não é um terceiro», os teólogos da Igreja de Roma conceberam uma palavra latina juntado sui e caedes. À letra: de si o homicídio. Em 1652, Caramuel intitulou De suicidio um capítulo da sua Theologia moralis fundamentalis. A palavra foi em primeiro lugar utilizada na Inglaterra, depois em França e na Itália, passando em seguida para a Espanha.

11.09.2009

Pascal Quignard, para quem a publicação de um livro não é um acontecimento

11.07.2009

O poema é o asfixiante monólogo de uma grã-fina neurasténica, pretensiosa, encafuada em queixumes, banalidades, floreados. Mas como é que aquela civilidade stressada, feita de chá e musiquetas, dá lugar a uma tal raiva do sujeito que a ouve?
Este parágrafo de Pedro Mexia levou-me a pensar, inevitavelmente, em Tchékhov.
Esta é, mais coisa menos coisa, uma reflexão de Proust:
A língua não tem necessidade de ser respeitada mas antes atacada e agredida.

Balada de Outono, ou: Até já tenho medo de abrir a caixa do correio e ouvir o telefone, ou de ter algum primo desconhecido que conheça algum primo ou

alguma prima de Sócrates. Fechados em casa, fichados no Google, nas Finanças, na Segurança Social, na empresa de telemóvel (estamos todos), olhados de lado porque temos cão e eles não, interrogados por qualquer vizinho denunciante por vocação, como na União Soviética e na RDA, gritam-me, ludibriados do baixo ao topo, do canalizador ao ministro, estupefactos porque os pensadores públicos, incluindo Pacheco Pereira, Pulido Valente e todos os Tavares nos querem enganar subtilmente como num bazar árabe, sem dinheiro para nos rirmos disso ou escrevermos textos inteligentes e irónicos sobre o assunto, mandados para Cuba ou para a América consoante as tendências, mandados esperar na bicha do Centro de Saúde, estrafegados de metáforas xanax ó poetas da minha terra… De resto, tudo bem, mas chega o Outono e ficamos tristes.

11.06.2009

Querem ler coisas inteligentes e bem documentadas? Ladrões de Bicicletas.

O Muro (lembrete)



É só no dia 9 do corrente o aniversário da sua Queda, mas preparem desde já os vossos textos porque as wikipédias também erram ou nem sempre trazem tudo. Farei o mesmo para o primeiro de janeiro, o 25 de abril, o primeiro de maio e o santo António, etc. Avanço com umas achegas: a União Soviética decretou, pela mão de Mikhail Gorbatchiov, em finais da década de 80, que a Rússia deixava de se responsabilizar pela União Soviética e vice-versa, pelo que, daí à demolição do Muro foi um pulo. (É por isso que os comunistas do PCP português - passem as redundâncias - têm como seu inimigo principal Mikhail Gorbatchiov, mas não estão sozinhos uma vez que Mikhail Gorbatchiov é praticamente detestado por toda a gente menos pelos organizadores de conferências). Mikhail Gorbatchiov, portanto e contra a opinião do PCP portugês que nunca gostou dele, fez uma perestroika, uma glasnost e, quatro anos depois, mostrou-se desinteressado pelo que se passava fora da Rússia e que dantes era a menina dos olhos da União Soviética, a saber «as duas Alemanhas», a Polónia, o Báltico e assim... Mikhail Gorbatchiov não gostava de aberrações («duas» Alemanhas em finais do século XX?) e foi como se dissesse: preparem tudo, daqui a uns meses aquilo vai abaixo. Sim, Mikhail Gorbatchiov disse-o e o Muro - pimba - caiu.

11.04.2009

Claude Lévi-Strauss

Com 103 anos (!!) faleceu um dos mais... Bolas, passou o prazo, isto era ontem.

11.03.2009

Lição da planície

A minha humildade é infinita. Assim, quando o stárets de Ourique ensinou: Não louves fulano se a tua intenção é atacar sicrano, vi-me ali chapado. Sim, eu faço isso, e mais: às vezes louvo fulano para atacar melhor fulano. É uma técnica que aprendi com maradona (esse não precisa dos meus links, já tem mais leitores que o senhor palomar). Não volta a acontecer, vou passar a separar as águas: posts de louvor na coluna da direita; posts de ataque na coluna da esquerda.

Outubro

Foi preciso ir a Coimbra para encontrar com certa facilidade este livro:
«A expansão do ideal leninista de tomada e de conservação do poder fez-se, em boa parte, instrumentalizando a simpatia de um grande número de intelectuais, por regra influentes nos seus países de origem, que ajudaram a disseminar pelo mundo um certo eco da legitimidade, da grandeza e da apoteose de OUTUBRO.» (Rui Bebiano na capa do seu livro Outubro, Angelus Novus, Coimbra, 2009)
Já tinha lido os textos no blog de RB, mas a inevitável dispersão da leitura ao longo dos dias (ou meses) não permitia encontrar a unidade que confere personalidade a um livro de ensaios monotemáticos. O livro tem ainda a vantagem de ter sido revisto e, também, de concentrar numa bibliografia final os grandes livros de referência (27), uma escolha muito criteriosa de RB que peca, no entanto, por não incluir autores russos (soviéticos ou não, favoráveis ou desfavoráveis), mas isso acaba por ir ao encontro da intenção manifestada na epígrafe da capa: mostrar a expansão do ideal de Outubro por parte de intelectuais estrangeiros (não russos) com destino a estrangeiros (não russos). Ou seja, o livro trata menos de um Outubro histórico e real e mais de um Outubro «mítico» como foi e é visto pelos intelectuais ocidentais, pró ou contra. Fala do que conhecemos, e isso é bom. É um livro vermelho (só de capa) que não exige pensamentos obrigatórios.

A verdade foi que

Fidel Castro não declarou o que os palhaços desonestos andam para aí a apregoar, mas declarou isto:
Se produjo así el extraño caso de que Estados Unidos, por un lado, autorizó los viajes del mayor número de personas portadores del virus y, por otro, prohíbe la adquisición de equipos y medicamentos para combatir la epidemia. No pienso, desde luego, que esa haya sido la intención del gobierno de Estados Unidos, pero es la realidad que resulta del absurdo y vergonzoso bloqueo impuesto a nuestro pueblo. (Fidel Castro)

«s»«o»«c»«i»«a»«l»«i»«s»«m»«o» «r»«e»«a»«l»

Falo dos blogs especializados, para o pró e para o contra, em socialismo real, perdão «socialismo real», perdão «socialismo» real, perdão socialismo «real», perdão «so»«ci»«a»«lis»«mo» «re»«al», perdão «s»«o»«c»«i»«a»«l»«i»«s»«m»«o» «r»«e»«a»«l».

11.01.2009

Crónicas de domingo, ou: num dia em que não se trabalha, consegue-se pensar um pouco.

Ejaculação prematura. Às vezes, com a proximidade da morte – e a morte está sempre próxima em qualquer idade, desde que pensemos nela -, a agitação mental é tanta, é tal a cavalgada de sentimentos e pensamentos que nos apetece meter tudo numa crónica. Mas metemos sempre apenas um pouco, a ponta túrgida e já túrbida, e o resto murcha após a inevitável ejaculação precoce. Todo o orgasmo é precipitado e extemporâneo, é uma defesa para outros rebentamentos mais graves, é um suspiro e um ópio. É este o peso da vida e da morte sobre a «criatura oprimida».
Suspiro e ópio. O que Marx realmente escreveu em 1844 foi: «A religião é o suspiro da criatura oprimida. Ela é o ópio do povo.» A justaposição destas duas frases, a existencial e a política, coloca a religião no mesmo plano das forças e das fraquezas da carne. É esta a arma dos ateus. Um ateu não é um incrédulo. Se nega Deus é porque o declara morto, e se o declara morto é porque pressupõe a existência finada Dele ou Disso, desse irreal presente. Chamo à crónica Saramago, um ateu, só para exemplificar. Os meus ateus preferidos são Stendhal, Sade, Baudelaire, Tchékhov, Schopenhauer, Nietzche, Freud. Não Voltaire nem Saramago. Saramago, como é natural, foi atacado por religiosos. Os religiosos não existiriam sem ateus, nem os ateus sem religiosos, porque não há ateus sem Deus. As coisas estão neste pé há muitos séculos, e é por isso que os argumentos de ambos nesta polémica parecem superficiais e banais. Mas não, de tão profundos e antigos banalizaram-se, simplesmente. De um lado estão Moisés, Jesus e Maomé, do outro o exército daqueles para quem Moisés, Jesus e Maomé não dizem nada, apenas Deus ausente diz tudo. O ateísmo é uma guerra, a religião é uma guerra. Entre eles não pode haver tolerância. Quase não valia a pena o jornal Público chamar um escritor estrangeiro de renome, Richard Zimmler, para dizer tantas banalidades e superficialidades para reiterar que tudo nesta polémica tinha sido banal e superficial. Está tudo na ordem das coisas, e a única frase válida de Zimmler é aquela em que, do campo dos religiosos, defende tréguas: «Os religiosos portugueses não deveriam responder a Saramago.»
Gott ist tot. De pegada em pegada, lá vamos chegando. Chegando onde? A Deus. À sua morte anunciada por Nietzche e não só. Sem esta morte arduamente conquistada pelos ateus ao longo dos séculos, Deus teria ganhado o jogo por falta de comparência do adversário mas extinguir-se-ia de verdade por falta pura e simples de campeonato.
Crash de 1929. Passou há poucos dias uma efeméride a que pouca gente se referiu. «Nada actual», devem ter pensado os pensadores, mas é-o muito, é mais do que nossa mãe ainda viva: o crash de 1929, que provocou mais suicídios do que a queda do Muro e a angústia da longa noite islandesa juntos. Podemos entrar numa Grande Depressão por causa disso? Não parece, alguma coisa se aprendeu com 1929. Naquele tempo «corriam rumores de que nos hotéis do centro perguntavam aos hóspedes se queriam quarto para dormir ou para se atirarem pela janela» (John Kenneth Galbraith). Tal como agora, o rebentamento da bolha (a tal crise fodida que teria por consequência uma guerra mundial e que só essa guerra haveria de resolver) foi antecedido por uma década de expansão contínua (o taylorismo e o fordismo), de alegria jazzística, de criminalidade honrada, de baixíssimas taxas de desemprego, de frigoríficos e carros para todos, casas, vivendas e lofts, de crédito fácil e de compras de acções a prazo ao alcance de todos mediante uma pequena fiança, da ascensão dos trusts a píncaros nunca vistos. E a bolsa sempre a subir, os lucros sempre garantidos. Não sou economista para explicar o mecanismo financeiro desta artificiosa comédia de enriquecimento e do seu desenlace trágico, só sei, e toda a gente sabe, que as acções deixaram de corresponder aos lucros operativos das empresas, que os especuladores financeiros tinham agarrado na coisa e dado asas à sua fantasia diabólica e criminosa, desgraçando muita gente e o país. Isso não lhes faz lembrar nada, leitores? O mecanismo foi o mesmo que subjaz actualmente às hipotecas subprime, à especulação com as empresas da net, aos bónus escandalosos, aos silêncios (antes do estouro) governamentais e administrativos. Aprendeu-se alguma coisa com o crash de 1929, sabendo que ele é mais do que nosso pai ainda bem conservado? Acho que sim: nos EUA, centro de tudo, diz-se que a economia está a recuperar, mas está-lo-á realmente ou, pelo contrário, fantasiosamente, com piruetas e aventuras financeiras? Não se esqueçam que as subprime já entram novamente e com bastante força na dança feérica do grande baile financeiro. Não esqueçamos que, nos EUA de 1929 , «o crash não se limitou a esse dia [30 de Outubro]. A bolsa entrou em queda, a intervalos, desde essa semana até ao dia 8 de Julho de 1932, quando atingiu o seu nível mínimo, o mesmo nível que tinha no ano de 1800. Até 1954, a bolsa não recuperou os níveis de 1929.» (Fernando Trías de Bes). Vamos esperar o fim da aventura e, optimistas, não recear pela recaída do cancro. Conclusão: o rebentamento das bolhas especulativas é o culminar de um orgasmo a que se segue sempre uma murchidão. Esperemos pela erecção seguinte, se entretanto não advier a doença, a impotência, a morte e o cadáver.
O Benfica, Uma Aventura, Correio da Manhã. Uma crónica de domingo não o seria se não incluísse o futebol e as curiosidades. Benfica: Se não nos tivessem anulado aquele golo limpo que daria o empate, outra águia cantaria. Uma Aventura, a Bíblia dos chavalos crédulos: Maria Isabel Alçada é uma mulher simpática e rica (do meu ponto de vista), pobretana do ponto de vista de um banqueiro de topo, remediada do ponto de vista de vossas excelências meus leitores. Não sei se ela já estava no Plano Nacional de Leitura ou em qualquer gabinete do ME quando 4-quatro-4 «umas aventuras» passaram a ser leitura obrigatória para os putos das escolas (aumento de vendas espectacular, penso eu). Partindo do facto que as «umas aventuras» são uma merda, do ponto de vista pedagógico, literário, psicológico, histórico e até geográfico, pobres na escrita e no enredo, sem imaginação, sem piada (li muitas por obrigação de pai), estupradoras muitas vezes dos delicados cérebros infantis (em literatura não há nada inócuo), e nada que se compare com os belos livros infanto-juvenis da escritora Alice Vieira, por exemplo, como é que vai ser agora? Os livros da sra. Ministra continuarão a ser obrigatórios ou recomendados, mesmo que não tenha sido a sra. Ministra a promovê-los como leitura escolar quando ainda não era ministra? E, já agora, o outro frasco literário para meter a resistência ao fascismo, Felizmente há Luar, também vai continuar? Não haverá outros frascos mais credíveis? Então e eu? Eu também quero ser leitura obrigatória, até porque já tenho saído no Correio da Manhã pela mão talvez amiga de Francisco José Viegas. Bem, ele amputa-me lá as frases, pontapeia-mas do contexto, mas eu não me importo, dou tudo por 89 caracteres+espaços no Correio da Manhã, curvo-me como um salgueiro-chorão.

10.30.2009

TRAJOSMONTES, CARALHO!

- Para matar, só Deus e os de Ermelo.
- Com licença dos de Gouvães, caralho.

- A juíja que bote majé pracá as armas, que são minhas, caralho. E o bispo que não me apoiasse, não, que lhe zupava.

Demagogia de sulista, porque também há transmontanos calmos, inteligentes e civilizados: Isaltino Morais (inocente) e Armando Vara (inocente).

Sete, hora nova, são horas de ir botar o gado. Bem hajam, Deus os guarde.

10.28.2009

Pastoral Portuguesa

O Pastoral Portuguesa «acabou ali» ontem, mas afinal hoje tinha lá um post cabalístico para a gente adivinhar quem era o autor daquela frase do melhor livro do ano (em inglês, evidentemente), e parece então que o Casanova se vai manter, god bless him, não só como comentador de blackjack mas também como blogger. Eu, que pensava que ele tinha acabado ali mesmo, compus-lhe pressurosamente um requiem e, como isso me deu um certo trabalho, sobretudo no domínio do pensamento puro, não quero desperdiçá-lo e transcrevo o meu requiem como se o Casanova tivesse de facto morrido:

Se há coisas que me espaventam, esta é uma delas: um blog sobre livros e outras representações artísticas que anda sempre muito bem informado, sobretudo no que diz respeito aos anglo-saxónicos e às maioneses, que é profundo e original mas foge da profundidade mortal praticando a respiração irónica e satírica, que é provocador mas, mais ainda, provocante, provocante como uma sereia a quem tivessem cortado as postas do rabo (estou a imitá-lo), que foge a sete pés das imposições da clique cultural em vigor, ora chatamente académica e sonolenta, toupeira mesquinha e cega que só fabrica montes de merda, ora alegre e publicitária, toda bolaños, cains, e bíblias, esse blog, que já se vinha desleixando ultimamente como uma menina romântica abandonada pelo príncipe chulo (estou a imitá-lo), informa agora que «este blog acaba aqui». Se não for uma figura de estilo, esta frase é uma grande merda para os habitués.

10.26.2009

Paradoxal

Escrever bem é fazê-lo com concisão e sentido, mesmo não dizendo nada, como faz Tchékhov, o mago que no entanto diz tudo. Vem isto a propósito de O Tio Vânia, do José, o discípulo do russo mais moderno e mais bem-sucedido que conheço, o qual não é mais do que o Mictório mudado de sítio mas não de ramo e que parece ter os canos bem arejados. Recuperei de lá este final: «Bom, então estás fodido», respondi-lhe, abalando, que de mortos basto-me.

10.25.2009

Aos domingos há diversos

Nepotismo falhado. O estudante do segundo ano de Direito Jean Sarkozy, de 23 anos, prescindiu da direcção do bairro de negócios da Défense «pour ne pas gêner papa».

Quando as fés falam. Não viu o debate Carreira das Neves-Saramago na SIC? Fez bem. Ambos jogaram à defesa e, quando assim é, o jogo afunda-se num anti-jogo aborrecido que em nada dignifica a dinâmica do jogo. JPT, ao transcrever grosso modo Carreira das Neves, sintetiza muito bem os parâmetros que a Igreja nos quer impingir com vista à desculpabilização e justificação dos lados negros da Bíblia: a Bíblia é simbólica, é literatura, são imagens, e nós estamos lá com as nossas notas de rodapé para guiarmos os leitores.

Juventudes. As juventudes são fabricadas pelos velhos. As juventudes são ignorantes e decorativas, e também sonsas e carreiristas se forem comunistas (ora, querem lá ver que não sabem o que é o gulag!). As juventudes não percebem o que lá foi nem estão preparadas para o que aí vem. O BE não precisa de juventudes porque ainda é jovem, mas lá virá o tempo implacável em que. Qual é o peso real das juventudes? Nenhum.

Até estou de acordo com isto, menos com o atalho habitual para onde derivam ultimamente todos os textos desse blogue e que lhe roubam alguma independência e objectividade.

(O eterno jovem Passos Coelho é a prova encarnada de que as juventudes não têm prazo de validade.)

Um homem deitou-se crente e acordou descrente. Felizmente, havia no quarto deste homem uma balança decimal médica, e ele tinha o hábito de se pesar todos os dias, de manhã e à noite. Assim, pesara-se na véspera, ao deitar, e a balança marcava 4 puds e 21 libras. Na manhã seguinte, ao acordar descrente, o homem voltou a pesar-se e a balança marcou 4 puds e 13 libras. «Daqui a conclusão: a minha fé pesava aproximadamente 8 libras», disse o homem.

(Daniil Harms, A Velha e Outras Histórias, Assírio & Alvim)

10.22.2009

Mais uma aventura

Isabel Alçada, n. 1950, escritora, ministra da Educação.

Ainda Saramago, pela última vez, depois voltamos à literatura

porqu'isto quando se trata de religião não é possível o debate, as cabeças já estão formatadas e não há volta a dar-lhe, e depois há essa lei que estipula que devemos respeitar as crenças dos outros, inda se fosse o Corão, agora a Bíblia (ponto de exclamação) que abrange cristãos e judeus. A lei do respeito é que eu não respeito enquanto não respeitarem a minha liberdade de interpretar e criticar a Bíblia, como faz Saramago, e nisso (só nisso) estou com ele e acho que até vou ler Caim quando estiver em saldo nas livrarias dos terminais ferroviários.

10.21.2009

Ainda isto:

E vendo Moisés que o povo estava despido, porque Aarão o havia despido para vergonha entre os seus inimigos.
Pôs-se em pé Moisés, na porta do arraial, e disse: Quem é do Senhor, venha a mim. Então se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi.
E disse-lhes: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa: e passai e tornai pelo arraial, de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu próximo.
E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés: e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens.
Porquanto Moisés tinha dito: Consagrai, hoje, as vossas mãos ao Senhor; porquanto cada um será contra o seu filho, e contra o seu irmão: e isto para ele vos dar hoje bênção.


A Bíblia pode ser lida de outras maneiras que não as: religiosas, patrióticas, dogmáticas, respeitáveis, figuradas, simbólicas, poéticas, fantasistas. Pode ser lida de uma maneira simples, com toda a boa-fé, sem os subterfúgios do pensamento elevado dos Valupis. Perante certos textos da Bíblia, como este acima, em que Moisés chama a si os filhos de Levi, manda os filhos de Levi matar os que não o eram, e os filhos de Levi matam efectivamente uns 3000 (diz o Livro)... que sentido figurado pode ser dado a isto? O único sentido, para as pessoas simples, é o de que matar os «outros» em nome do Senhor não é pecado, é correcto.
Saramago é enxovalhado exemplarmente, em talentosa prosa, por Valupi. É por ele acusado, no essencial, de ser um senil que não sabe pensar e só diz asneiras, que não sabe o que são «sentidos literais e figurados, denotação e conotação, sinal e símbolo, fantasia e realidade, histórias e História». Depois ressalva-lhe (a Saramago) a literatura... Então os livros dele não são um produto do seu pensamento? Quem é que não sabe pensar, Valupi?
Somos pessoas simples, até de espírito (como a Bíblia gosta), tudo o que fazemos de mal é porque Deus manda, estamos desculpados; e o que fazemos de bom é porque somos espectaculares.

Saramago

Dizem viperina, sonsa e imbecilmente os principais bloguistas conservadores, secundando a decrépita Dona Igreja, que Saramago é um mercador que adora o bezerro de ouro (o ouro que lhe vai render o seu livro), despido de fé, um ortodoxo de sinal contrário (o que será isso?), enfim, um idólatra. Ora, Moisés manda matar os idólatras. Então matem-nos, ou obriguem-nos a renunciar à cidadania portuguesa, para que a vergonha e a ira do Senhor não impenda sobre a nação beata. Em verdade vos digo: a Bíblia não é propriedade da senhora dona Igreja católica nem dos conservadores, é um belo livro que pode ser lido e analisado por todos. Quase me bastou abrir a Bíblia à sorte para encontrar um exemplo de ódio e massacre que dá razão a Saramago: Êxodo, 33, 25-29:

E vendo Moisés que o povo estava despido, porque Aarão o havia despido para vergonha entre os seus inimigos.
Pôs-se em pé Moisés, na porta do arraial, e disse: Quem é do Senhor, venha a mim. Então se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi.
E disse-lhes: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa: e passai e tornai pelo arraial, de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu próximo.
E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés: e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens.
Porquanto Moisés tinha dito: Consagrai, hoje, as vossas mãos ao Senhor; porquanto cada um será contra o seu filho, e contra o seu irmão: e isto para ele vos dar hoje bênção.


Agora os literatos beatos vão dizer-me que aquele «matar» é simbólico, que se trata apenas de obrigar a «renunciar à cidadania» ou qualquer coisa do género. E os hipócritas vão dizer que, depois, o Senhor acaba por perdoar a todos, inclusive aos mortos na matança. Garanto que, no Êxodo, tal não acontece, que o Senhor apenas instruiu Moisés no sentido de não se misturar com os «outros», de não tomar mulheres das filhas dos «outros», porque elas não mais faziam do que prostituir-se após os seus deuses. E o rosto de Moisés resplandeceu.

10.20.2009

O Anticristo e o Idiota

Saramago tem razão quando diz que «os católicos não lêem a Bíblia, só a hierarquia», tal como os comunistas não lêem O Capital, nem a hierarquia, digo eu.
«O eurodeputado social-democrata Mário David exortou hoje o escritor José Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir “envergonhado” com as recentes declarações do Nobel da Literatura sobre a Bíblia.» (Público de hoje)

10.16.2009

Morrer de fome uma ova

Muitos escritores russos passaram fome nos anos piores da ditadura (anos carnívoros) e nos menos maus (vegetarianos): Mandelstam, Akhmátova, Daniil Harms, Bulgákov, Vassíli Grossman, Chmielov, tantos… - e respectivas famílias. Brodski passou fome na emigração. Uma fome dura e não consentida, verdadeira, a raiar a morte. Outros, como Tolstói, passavam fome porque queriam: o conde era vegetariano e jejuava religiosamente. Mas para descrever, ao ponto de nos tirar o sono, a maneira como não se come, se incha e se morre de fome, não têm paralelo Grossman e Chmielov. Nem que o caro leitor se diga imune à insónia, há leituras que lhe tiram o sono, lhe estragam a vidinha ou mesmo a vida. Falo destes russos que descrevem a guerra, a revolução, as matanças e a fome do ponto de vista humano. A sua arte negra é tão poderosa que, repito, nos escangalham o sono e a vida, e nos levam a jurar: que se foda a análise literária. Se te perdes no sobe e desce de Alfama e passou a tua hora de jantar, e a friagenzinha nocturna desta estação de veludo te titila o apetite, jamais dirás, após a leitura de Chmielov sobre a fome na Crimeia nos anos vinte: estou a morrer de fome. Dirás: são horas de comer alguma coisa antes que chegue a guerra civil e a revolução. A sério, evita desrespeitar a fome e a morte.

Quem é?

Já fiquei mal visto e me senti muito mal em sociedade por ter perguntado muito interessadamente quem era fulano e sicrano: quase todos os jogadores do Belenenses e do Trofense, os vocalistas das bandas anglo-saxónicas (eu sei que são as únicas que valem a pena), o David Fonseca, o Aguiar Branco e, agora... a Maitê.

Louis Sarkozy, o infante

O provável representante da França na ONU quando terminar o 9º ano.

10.15.2009

Jovens monárquicos, atentai neste príncipe, ele pode muito bem vir a ser o próximo rei de França

Como não tenho visto (lido) nada nos blogues sobre o príncipe Jean Sarkozy, vou explicar sucintamente:
Tem 23 aninhos e é filho do presidente da República francesa (uma república sólida, tal como a portuguesa) e graças a manobras da Corte (do Élysée) foi «eleito» presidente da maior praça financeira da Europa (pública). Em sua defesa saiu o papá e os amigos da família Sarkozy. Uma tal madame Isabelle Balkany, vice-presidente do conselho-geral de Hauts-de-Seine (organismo público) e senhora próxima da família Sarkozy, usa fortes argumentos monárquicos: «il est le meilleur d'entre nous». Os outros argumentos dos outros aristocratas (como, p. ex., «La France a peur de sa jeunesse») em defesa do «eleito» príncipe Jeannot são do mesmo teor rigoroso.

10.12.2009

A longa noite eleitoral

Adoro as longas noites eleitorais, mas quero é resultados, golos, surpresas, ilusões, desilusões, numa palavra: arte. Mas não, dão-nos pouco disso, intrometem-se de súbito os inteligentes a analisar, um careca baixinho, um belfo manhoso, um barbudo de barba cuidada, voz fininha e com o seu quê de aristocrático mas que mesmo assim deixa transparecer uma alma tão sebosa, com jogadas políticas tão idiotas apesar da sua alta inteligência. Ponto final intempestivo, direis. Prossigo. Vê-se então o homem telespectador obrigado a mudar de dimensão para a 2 e lá é tudo tão doce, tão louro, tão olhos claros, é sobre a Agustina, uma senhora. Só se ouve a Inês Pedrosa, uma mulher do mundo, e a Paula Moura Pinheiro tão delicada para toda a gente quando a bela cara dela (o rosto) indicia outra coisa. A Dona Inês não se põe um segundo em sossego, e Mexia, a propósito de poesia, fala de «tagarelice», oh, como ele lá chegou talvez sem querer. Agustina, a aforística, é esmiuçada pela senhora Pedrosa ou apenas tagarelada? Nunca viremos a saber, assim como nunca viremos a saber quem ganhou as eleições autárquicas, apenas que a CDU perdeu Beja, uma bela capital de distrito. Tagarelice por tagarelice, retornemos à ponta final da cidade de Lisboa, o ponto mais alto da emissão da longa noite. Se o leitor não aprecia Simão Sabrosa, o vila-realense fanhoso de 29 anos, dir-lhe-ei que raramente falha um passe ou um cruzamento, e que o faz em consciência, e que tanto se adapta ao losango geométrico como às sequências numéricas. Fixe este aforismo, porque talvez lhe venha a fazer falta para compreender melhor a obra de Agustina. Agora, outra coisa, leitor: se vires a câmara clara (nos intervalos da longa noite crepuscular), na saleta da tua consorte, que é onde há um pequeno buraco para embutir o televisor, saleta essa rodeada de livros apenas russos exceptuando os de culinária, concluirás que toda aquela livralhada é terrorismo, um confronto grosseiro com a realidade, e que a literatura portuguesa, em comparação, mais limpa sem dúvida, te coloca direitinho numa zona balnear com muitos livros, muita doçura, muito peixe grelhado com salada e muita tagarelice.

10.10.2009

Eleições autárquicas

Prometo que, a seguir às eleições, retiro deste blog as duas manifestações de mau gosto acima e abaixo representadas graficamente: os peixinhos vermelhos que nadam, nadam, se encavalitam e entrecruzam, e os palhaços.
Isto não é propaganda eleitoral, porque está proibida e sei que estamos todos numa fase de profunda reflexão. Não posso calar, todavia (ou contudo, ou porém), que morei na Linha de Sintra e que o Fernando Seara me dava sempre qualquer coisa em todas as eleições: possuo ainda dois magníficos aventais de pano cru, boa cópia de esferográficas de óptima qualidade, bonés de praia perfeitamente eficazes no combate às insolações, outros gadgets muito úteis, afora as promessas...
Agora que mudei para a Margem Sul, o que me dão os comunistas? Papéis, papéis, brochuras, panfletos, papéis, música de arruada. É evidente que não se exige neste deserto pobre nenhum Valentim Loureiro nem máquinas de barbear ou de café, mas uma esferograficazinha, afora as promessas, custava alguma coisa, comunistas?

10.09.2009

Palhaços

De manhã: Carmona vai-mi apoiáre pu-pu-puliticamente


Ao meio-dia: Eli não vai apoiare-mi


À tarde: E vai, e vai, nhã-nhã-nhã-nhã-nhã

10.07.2009

Bolaño

Mais um «invejoso, ressentido, ressabiado».

10.06.2009



O texto que se segue é para justificar a minha viragem de casaca: dantes pensava que era impossível compreender Gógol sem conhecer a sua vida. Agora não, antes pelo contrário, e apesar das tentativas para fundirem as duas coisas empreendidas por Nabokov e por Andrei Siniávski.

Calhou a Gógol renovar a prosa russa, fazê-la «popular», prepará-la para os génios russos da narrativa que se lhe seguiriam. Fê-lo pela arte da caricatura, de que ele próprio se envolvia. O homem tinha o instinto artístico de um maluco, o nariz de um roberto dos bonecreiros, manias indumentárias que chegavam a fazer dele um palhaço, ademanes de arquiduquesa de opereta, comportamentos intempestivos de gógol. (Gógol, em russo, é galispo, pavoncino, verdizela, uma ave de crista muito chibante. A palavra evoca sobretudo a expressão khodit’ gogólem, ou seja «armar-se em galispo», pavonear-se.) Há um episódio relatado por Serguei Akssakov em História da minha amizade com Gógol que poderia perfeitamente figurar no Diário de um Louco: «Quase gritei de espanto. Estava ali à minha frente o Gógol, disfarçado com uma fantástica farpela: em vez de botas, meias russas até meio da coxa; por cima da camisa de flanela, uma casaquilha de veludo; tinha enroscada ao pescoço uma comprida écharpe multicor, e na cabeça um turbante de veludo cor de framboesa bordado a ouro, como usam as mulheres da Mordóvia. Gógol estava a escrever, absorto no seu trabalho, e nós, visivelmente, fomos incomodá-lo. Esteve muito tempo a olhar para nós sem nos ver, como disse Jukovski; da sua indumentária é que não tinha qualquer vergonha.» Ele próprio escrevia aos amigos coisas como esta: «Ajuda-o […] a escolher uma peruca para mim. Quero rapar a cabeça, não para que o cabelo me cresça mais forte, mas pela própria cabeça: talvez isso ajude à transpiração e talvez a inspiração brote melhor. Porque a minha inspiração está a embotar-se, às vezes sinto a cabeça presa numa nuvem pesada, tenho de a dissipar constantemente; e tenho tanto que fazer. Há agora perucas de um modelo novo, adaptáveis a todas as cabeças, sem molas de metal, em borracha elástica.» (Carta de 1838, escrita de Roma para Paris ao seu amigo Danilevski.)
Pela observação exterior, puramente exterior, dos seus gestos, palavras, comportamentos e «cenas», muitos consideravam-no louco, ou pelo menos tarado. A sua estranha abstinência sexual também ajudava a isso. Partindo das suas poses exteriores, e não só, foi um pulinho de pardal para que a crítica e a cena cultural da época expandissem para a vida e para a arte de Gógol (para o que escreveu nos seus livros) os conceitos de «caricatura de si mesmo», de «nada de sério», de «falso»: falso santo, falso eremita, falso homem, falso demónio, falso escritor. Mas é tudo tão superficial e arbitrário na crítica e na chamada cena cultural de uma época, de qualquer época, sempre comandadas pelos seus funcionários limitados, que houve que esperar muitos anos para que viesse ao de cima o verdadeiro Gógol, sem as inúteis peias biográficas. Afinal estou de acordo com Rogério Casanova quando diz que podemos perfeitamente ler Gógol sem sabermos nada da sua vida. E muito menos as cenas que relato acima.

(As citações foram traduzidas de À Sombra de Gógol, de Abram Tertz / Andrei Siniávski)

10.04.2009

Tucumán, 9 de 9 de Julho de 1935 - Buenos Aires, 4 de outubro de 2009

10.02.2009

Pedro Mexia versus Lobo Antunes

O episódio descrito por Pedro Mexia é natural, principalmente entre os mais velhos, e decorre de um uso e costume enraizado e estúpido que eu julgo muito português. Quem está lá em cima – e segundo outro uso e costume português o escritor está lá em cima e o crítico cá em baixo – teria todo o direito de dizer «não o conheço de lado nenhum», embora conhecendo, querendo isto significar que quem não é da nossa igualha se pode descartar com um gesto arrogante de senhor. Afinal, para o senhor escritor, o crítico mesmo crítico não passa de um leitor mais chato e picuinhas com a mania das grandezas e com a pretensão de passar do vestíbulo para o salão do senhor – mas ao fim e ao cabo um súbdito. Além disso, a crítica à crítica por parte do escritor só é legítima se mantiver o mesmo nível de argumentação utilizado pelo crítico. De outro modo é qualquer coisa muito rançosa, muito, como hei-de dizer… à pior antiga portuguesa.

9.30.2009

A nova linguagem diplomática

Afinal o que disse o Presidente da República?
E o que não disse?
O que pretendeu dizer não dizendo?
Falou para os Portugueses ou para o seu círculo cabalístico?
Não sabemos, somos leigos, só entendemos a palavra dos homens.
Mas onde ele quis chegar, isso desconfiamos.

9.29.2009

Grande vitória também para o PCTP-MRPP, que a partir de agora deixa de ter zeros à esquerda e recebe um prémio pecuniário. «Embora lá agora aproveitar o guito capitalista para atacar o capitalismo».

9.28.2009

Do mal, o menos. Ou: todos ganharam alguma coisa.

Que raio de país é este em que nunca ninguém perde as eleições?
PS - Porque, apesar de ter perdido a maioria absoluta, muitos votos e deputados, ganhou ainda assim as eleições.
PSD - Porque, apesar de ter perdido votos e deputados, mantém-se ainda assim à cabeça da direita.
CDS - Porque, apesar de não ter chegado à cabeça da direita (lá chegará), subiu em votos e deputados e alcandorou-se a um honroso 3º lugar na tabela classificativa, podendo pensar em negociar com Soares (perdão, Sócrates).
BE - Porque, apesar de, afinal, a sua vertiginosa subida não ter força para influir na formação do governo e do programa governamental por parte de Sócrates (ficou claro na campanha que era esse o seu objectivo principal), contribuiu ainda assim para a maioria relativa e ficou à frente do seu arqui-rival irmão comunista.
CDU - Porque, apesar de ter descido para um vergonhoso 5º lugar na tabela classificativa, teve ainda assim uma ligeira subida de votos e deputados em relação às legislativas de 2005.

LEGISLATIVAS 2009

Do mal o menos, assim pensam todos.

9.26.2009

A Submissa

Carla de Elsinore chamou-me a atenção para o espectáculo de Emmanuel Nunes La Douce, baseado no conto não homónimo de Dostoiévski A Submissa, porque era uma submissa nada doce, antes amarga, até à tragédia. Mas isso não importa muito, importa o espectáculo de Emmanuel Nunes, falado em francês, cantado em alemão e em que a música segue as palavras e não o contrário. Inovador, para não dizer mais. E não importa também que 10% do público tenha abandonado a sala. Por que terá Emmanuel Nunes escolhido A Submissa para compor um espectáculo na ponta da modernidade? Talvez porque o russo, neste conto e noutros (a maioria inseridos no se Diário de um Escritor) inovava, procurava caminhos novos para a expressão literária, e acho que o conseguiu. Foi o que ele chamou «o processo de narração [...] impulsivo e interrupto, atabalhoado: ora fala consigo próprio, ora como que se dirige a um ouvinte invisível, a um juiz qualquer. De resto, é assim que as coisas acontecem na realidade...» Deixo aqui o texto completo da explicação de Dostoiévski.

A SUBMISSA

História fantástica

Do Autor

Peço desculpa aos meus leitores por publicar desta feita, em vez do «Diário» na sua forma habitual, apenas uma novela. É facto que trabalhei nesta novela durante a maior parte do mês. Seja como for, peço a condescendência dos leitores.

Agora, sobre a história em si. Subintitulei-a de «fantástica», mas eu próprio a considero real em absoluto. Acho porém que o fantástico se mostra de facto aqui e precisamente na própria forma da narração, o que acho necessário esclarecer previamente.

Acontece que não é um conto literário nem são apontamentos. Imaginem um marido que tem em cima da mesa a mulher morta, uma suicida que horas antes se atirara da janela. Está perturbado e ainda tenta consciencializar o que aconteceu, «juntar as ideias num ponto». Além disso, é um hipocondríaco empedernido, desses que falam sozinhos. Ei-lo a falar consigo mesmo, a contar a história, a esclarecê-la para si mesmo. Apesar da aparente coerência da sua fala, ele contradiz-se várias vezes, na lógica e nos sentimentos. Justifica-se e acusa-a, e entra em explicações alheias à questão: se há aqui grosseria de pensamento e de coração, há também um sentimento profundo. A pouco e pouco, ele arranja de facto uma elucidação do caso para si mesmo e «junta as ideias num ponto». A série de recordações evocadas por ele leva-o, por fim, à verdade irrefutável; a verdade eleva, irrefutavelmente, a sua mente e o seu coração. No final, em comparação com o início desordenado, o próprio tom da narração muda. A verdade, clara e definitiva, abre-se diante dos olhos do desgraçado, pelo menos a sua verdade.

O tema. Fica claro que o processo de narração se continua por várias horas, impulsivo e interrupto, atabalhoado: ora fala consigo próprio, ora como que se dirige a um ouvinte invisível, a um juiz qualquer. De resto, é assim que as coisas acontecem na realidade. É certo que, se um estenógrafo pudesse ouvi-lo e apontar tudo o que ele dizia, o resultado seria um pouco mais tosco, menos elaborado do que eu o apresento aqui, mas, na minha opinião, a ordem psicológica talvez fosse a mesma. Esta suposição de um estenógrafo que teria registado tudo (tendo eu depois elaborado os apontamentos) é ao que eu chamo fantástico nesta novela. Entretanto, já se têm admitido em arte, por mais de uma vez, coisas destas: Victor Hugo, por exemplo, na sua obra-prima Último dia de um condenado à morte, utilizou quase o mesmo método e, embora não apresentasse a figura do estenógrafo, deu à inverosimilhança uma liberdade ainda maior ao supor que o condenado à morte podia (e tinha tempo) fazer apontamentos não só no seu último dia mas até na sua última hora e, literalmente, no seu último minuto. Porém, se ele não recorresse a esta fantasia, não haveria a própria obra – a mais realista e a mais verdadeira de todas as obras que ele escreveu.


9.25.2009

Antes do período de reflexão

Durante o período, devem as senhoras e os senhores votantes abster-se de álcool, carne de porco e, como a maioria dos presidentes e vereadores municipais na sua prática de todo o ano, de livros, cães e árvores. Devem fechar olhos e ouvidos às sondagens (se as houver, são tão ilegais como a cocaína). Para quem acredita nas sondagens, e eu acreditei até ontem, vai ser duro, mas afinal parece que não são tão científicas como isso porque ocultam a percentagem de indecisos, que vai em 37% (isto não deve ser verdade porque quem me alertou foi um comunista. Hoje, até à meia-noite, ainda se pode apontar um dedo piedoso e desiludido a Cavaco Silva que perdeu a sua reputação de patriarca justo ao levantar a questão das escutas e da espionagem em plena campanha eleitoral desejando com isso beneficiar uma das facções. Mas, a partir da meia-noite de hoje, não se aponta o dedo. Durma, descanse, faça exercício, aproveite bem o tempo de reflexão que lhe é concedido por lei. Viva Portugal.

9.24.2009

Os reaccionários portugueses calam

Zelaya, presidente eleito das Honduras

Quase não se lê uma palavra sobre a situação nas Honduras. O golpe que depôs Zelaya pela força das armas e que teve o apoio de boa parte da classe política, do empresariado, da Justiça, do Congresso e até da Igreja Católica - tudo gente respeitável, como se vê - ocorreu horas antes de ser realizado um referendo que abriria caminho para a reeleição presidencial, é condenado pela «opinião internacional», um fantasma de que os reaccionários portugueses costumam servir-se muito, mas desta vez não: calam como ratos no seu esgoto. Os reaccionários portugueses olham com ódio para Chávez e Lula, que apoiam activamente Zelaya (encontra-se agora na embaixada do Brasil em Tegucigalpa), e devem sentir-se justificados apenas com isso. Os reaccionários portugueses são uns pulhas sem valores nem dignidade.

9.22.2009

Ainda a nossa pequenez (sobretudo mental)

Desde que anda por aí à baila o tema do acordo ortográfico, já li dezenas, senão centenas, de textos de idiotas que partem de um corolário que eles julgam indestrutível: a «superioridade» do «brasileiro» em relação ao «português», uma vez que os brasileiros teriam tratado a nossa língua comum com mais criatividade, graça, profundidade, elegância, meiguice (ai cafuné, cafuné), etc. Então as línguas, agora, entram em competição e ganham medalhas? Eu desafio qualquer um a encontrar uma língua superior ao tadjique para exprimir coisas sobre cavalos, ventos da estepe, etc.
Sei até de um escritor, que ainda por cima não é idiota nenhum, que escreveu um policial (Francisco José Viegas, Longe de Manaus; nada maus, aliás, os seus policiais) e que provou, ao situar o romance em Portugal e no Brasil, misturadamente, que as duas variantes da língua se equivalem em força e beleza consoante o que exprimem e quem o exprime (FJV tem trechos completos em brasileiro, incluindo a ortografia, e é assim que nós estamos a viver uma situação brasileira protagonizada por brasileiros de uma maneira mais eficaz do que se fosse escrita em portugês de Portugal). Se FJV provou artisticamente esta verdade da paridade das falas, por que razão, quando se trata de raciocinar sobre as coisas da língua, só diz baboseiras?



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