10.31.2010

Vida literária

Então não é que fazem tudo para o António Guerreiro ter razão?

António Guerreiro aqui há tempos, no suplemento Atual do Expresso:
A literatura, que na época do romantismo fez da crítica o seu conceito imanente e, com a sociedade de massas, se tomou objecto da sociologia, entrou na fase em que reclama uma etologia. Em rigor, a etologia nada tem a dizer sobre a literatura, mas é a ciência mais competente para falar sobre aquilo em que esta se dissolve: a vida literária. Entende-se por vida literária o código de comportamentos que rodeiam a instituição literária. A utopia de uma vida literária plena, encontramo-la na revista "Ler". Até um etólogo de fraco saber percebe, mal começa a folheá-la, que entrou numa reserva de vida especial. Não é que esta vida não habite nas páginas literárias dos jornais. Mas na revista "Ler" todos os álibis foram abandonados e o resultado é uma concentração de vida literária, um encontro jubilante de escritores, editores, críticos, divulgadores, leitores: a grande entrevista que eleva o entrevistado ao Olimpo do Grande-Escritor; as rubricas de fait-divers e de brincadeiras inocentes; as notícias e as listas dos livros a sair (a vida literária tem, por definição, uma tensão prospectiva, declina-se sob a forma do que aí vem); o top dos livros mais vendidos nos países a que o leitor cosmopolita não pode deixar de estar atento; a prodigiosa proliferação (dez, ao todo) de crónicas ─ o bem mais partilhado neste mundo de sonho. Tudo alimentado por um fervoroso amor aos livros, até às suas entranhas materiais. A vida barroca e flamejante deste jardim, que é o melhor dos mundos possíveis, tem a sua expressão na eloquência patética de um Candide sem ironia: "O que faz falta na crítica literária portuguesa é a análise superficial" (Jorge Reis-Sá). Só nesta coutada protegida de vida literária, onde reina uma harmonia pré-estabelecida, "um devorador de livros açoriano", anunciado na capa, não é uma séria ameaça a um escritor que, logo abaixo, ousa dizer em voz alta: "O Livro sou eu."

2 comentários:

José disse...

Estou de acordo.

Anónimo disse...

ah vida!
há vida
para além da literária
a que se lê
nos livros
por exemplo


ass.: o poeta das caixas de comentários

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