6.28.2011

Gonçalo M. Tavares

Cada qual está sempre debruçado sobre o mundo em parapeito frágil.

Gonçalo M. Tavares

Ergo aqui bem alto a minha seta erecta ao vencedor do prémio da Ass. Port. de Escrit. (APE), também conhecido por prémio Macaco (APE), pelo seu romance em dez cantos Uma Viagem à Índia. Como bem topou o respectivo prefaciador Eduardo Lourenço, trata-se de um livro paródico. Para um livro paródico, crítica paródica.

Já Luís Vaz de Camões tentara, com êxito, uma viagem à Índia e o respectivo romance em dez cantos. Sem sair das redondezas de Sião e de Jerusalém, já Amos Oz tentou o mesmo, com êxito, em Só o Mar. Gonçalo M. Tavares, sem sair de Lisboa, aposto, culminou com os Lusíadas do século XXI e ganhou 15 000 euros. Não foi pequena a tença.

Quem acusa Gonçalo M. Tavares de praticar uma filosofia wikipédica em roupagens literárias bebidas nos quatro quadrantes (por acaso nem sei se alguém o acusa disso), está errado porque Gonçalo M. Tavares começam por dizer “não falaremos de…” e depois vem o rol das coisas de que não falarão falando, coisas que apanharam com facilidade (Camões não tinha essas facilidades) numa simples pesquisa do Google escrevendo “coisas incontornáveis da história do mundo e do homem, dignas de figurar num poema épico em prosa”: o rochedo sagrado de Jerusalém, o Parnaso, Hermes Trimesgisto, Santo Graal, o Vesúvio, as águas de Bath em Inglaterra, as pirâmides de Gizé, Stonehenge ou Avebury, Pedra Negra de Meca, Machu Picchu, Os Gregos, os Gregos, penhascos do Colorado… o que ocupa inúmeras estâncias de que não falaremos. Falaremos de Bloom, um português que partiu de Lisboa para a Índia com o seu blusão novo. É assim que começa o livro, um grande livro de 500 páginas e capa dura que se resumem a 100 porque, tirando as coisas de que não falaremos, aquela disposição em verso e espaços para as estâncias faz render os caracteres e os espaços e transforma cada dez páginas em duas no máximo, o que me lembra a palavra coimbrã bazófia.

Vou no fim do primeiro canto.

12 comentários:

morgada de V. disse...

De resto, não falarei do facto de nunca ter lido o GMT, nem de como esta crítica confirma os meus infundados receios, para não levar ninguém, de quem também não falarei, a acusar-me de julgamentos sem contraditório (e eu tenho uma reputação de pessoa justa de que também não falaremos).

Harry_Madox disse...

O grande maradona há uns tempos:

http://intriga-internacional.blogspot.com/2010/11/gmt.html
dommus

jpt disse...

o pouco que tenho lido é muito fraquinho. mas se mais entendidos (e até os franceses) gostam, nunca se sabe (posso ter lido as más partes, também é verdade)

-pirata-vermelho- disse...

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Fora de contexto mas por sugestão da estimada Morgada de V., transcrevo para qui ipsis verbis a pergunbta que lhe fiz quando pensava que ela desrussificava o que lhe dizia
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- como é que poria em português ‘ни шерсти, ни вида’ ?
(e fico-lh’eternamente agradecido!)
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e a si também fico se quiser ter a bondade...
(trata-se de uma fala do Camaleão, do Tchekhov)

Obrigado

gaf disse...

pirata: ‘ни шерсти, ни вида’ ?
"Nem pêlo, nem aspecto", ou seja, com aspecto feio, vulgar, referindo-se ao cão. A partir daqui, traduzam como quiserem, você e a morgada marada.

-pirata-vermelho- disse...

Não se trata então de um provérbio ou outro aforismo ?

gaf disse...

sim, é uma espécie de "frase feita" que se aplica em muitas circunstâncias que não o cão, sei lá do tipo "diz a letra com a careta", mas não tenho presente o contexto (estou de férias fora) e não me lembro se alguma vez a traduzimos...

-pirata-vermelho- disse...

Muit'obrigado!
Foi muita gentileza sua.


Boas férias.

Sabrina D. Marques disse...

Eu, que quero ler esta epicidade afamada, digo muito bem do autor, e até volto atrás para reformular que digo mesmo muito bem do autor.

Comecei com a relativa banalidade dos livros d"O Bairro" e das crónicas domingueiras, e andei um ano ou mais a desdenhar no tipo. Até que lhe concedi o benefício da dúvida e enfiei-me nos livros negros. O consumo desabrochou na mente à velocidade de os querer a todos, e é na certeza dessa dávida, que acarinho, que para aqui venho argumentar a minha defesa.

Pedro Corga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Corga disse...

Veja bem qual o significado de paródia... aconselho a leitura de Bakhtin, Northorp Frye e, mais recentemente, Linda Hutcheon, com Uma Teoria da Paródia.

E aproveite para reler o Prefácio de Eduardo Lourenço, que tem muito que se lhe diga.

Pode googlar e wikipar se quiser, não tenho nada a ver com isso.

Anónimo disse...

falaremos/nao falaremos?EU DIREI QUE JULGO TER NAS MAOS UM GRANDE LIVRO-TERESA A.

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